| A tragédia de Trancoso |
| Política |
| Sergio Granja |
| Ter, 21 de Junho de 2011 13:18 |
Vejamos que lições podemos tirar do acidente de Trancoso. A primeira coisa que chama a atenção é a licença tirada pelo governador. Que bombeiro, que professor, que funcionário público teria direito a licença de sete dias pelo falecimento da namorada do filho? Mas há mais. Digamos que Cabral seja uma pessoa sensível. É certamente sensível aos interesses dos megaempresários que ele cumula de isenções fiscais, embora insensível ao drama dos bombeiros, dos professores, dos funcionários públicos. Mas não se trata disso. O governador é sensível aos toques pessoais, quando o sapato lhe aperta o calo, que dói. Não deixa de ser comovedor. Mas isso lhe daria o direito de dispor dos bombeiros do estado para fazer buscas de corpos desaparecidos no acidente em Trancoso? Bem, considerando que os bombeiros são servidores públicos e não serviçais da família Cabral, se podem ser deslocados para fora do Rio para atender os amigos do governador, deveriam sê-lo também para socorrer qualquer cidadão do estado que se acidentasse na Bahia ou em qualquer outro lugar. Como não é assim, a menos que o atual comandante do Corpo de Bombeiros não passe de um inveterado puxa-saco, não se pode compreender a razão que o levou a juntar um contingente da corporação, fardado e equipado, com o propósito de deslocar-se, às custas do erário, a Trancoso. Há um dado interessantíssimo. O acidente ocorreu em seguida a um jantar que reuniu comensais seletos. Sergio Cabral, e o primeiro escalão de seu governo, jantou com o empresário Fernando Cavendish. E quem é esse empresário? Seria o presidente da Delta Construções? Ele mesmo. Por acaso, ou talvez não haja acaso nisto, trata-se de figurinha carimbada. Foi acusado de ter se favorecido de tráfico de influência para vencer licitações no governo federal. O que será que Cabral queria com ele? Não está claro. O que se sabe é que a Delta Construções faz parte do consórcio responsável pela reforma do Maracanã, obra do governo estadual. Aliás, a reforma do Maracanã, orçada inicialmente em 600 milhões, já beira 932 milhões. Isso significa uma majoração de mais de 50%. O TCU aponta indícios de superfaturamento. Além disso, a Delta também faz parte do consórcio encarregado da construção do complexo petroquímico de Itaboraí, o que movimenta uma montanha de dinheiro. Pois bem, Sergio Cabral viajara, ao sul da Bahia, para a festa de aniversário de Cavendish. Viajou na companhia deste empresário, num jatinho de outro empresário. Quem? Nada mais, nada menos que o todo-poderoso Eike Batista. É curioso que Cabral não tenha tempo para negociar com bombeiros e professores as pautas das reivindicações deles, mas tenha tempo de sobra para conversar, sabe-se lá o quê, com empreiteiros e outros empresários. E a tragédia de Trancoso? Bem, está sob investigação da Aeronáutica. Sabe-se, todavia, que o piloto do helicóptero sinistrado era o empresário Marcelo Mattoso de Almeida. (É impressionante como tem empresário metido nessa história.) Ocorre que ele estava com sua habilitação vencida há seis anos. Isso, no entanto, não foi impedimento para ele pilotar, pois usou o registro de outro piloto como se fora o seu. Mas quem era esse Marcelo Mattoso de Almeida? Simplesmente, um ex-doleiro acusado de fraude cambial há 15 anos e de crime ambiental de sua empresa, a First Class, na Praia do Iguaçu, na Ilha Grande, em Angra dos Reis. A licença vencida teria sido a única irregularidade nesta trágica história? Cabral deve explicações "Em solidariedade às famílias das vítimas, os deputados aguardaram até quarta-feira para apresentarem o requerimento. "Foi uma tragédia e as famílias merecem solidariedade", disse Janira Rocha. Para ela porém, o governador deve explicações sobre os fatos que o acidente revelou, especialmente sua proximidade com o empreiteiro Cavendish, o que não se sabia até então. Entre as informações solicitadas ao governador estão as cópias dos contratos e das licitações vencidas pela Delta Construções no DER, Cedae e Emop. Eles também querem saber sobre as obras contratadas com a empresa sem licitação que, segundo denúncias, correspondem a 25% dos serviços feitos pela Delta no estado. Foram solicitadas ainda, informações sobre o total de incentivos fiscais concedidos pelo governo estadual às empresas do bilionário Eike Batista. O caso repercutiu também em Brasília. O deputado Chico Alencar (PSOL) questionou o fato da assessoria do governador ter, inicialmente, tentado esconder a presença de Cabral na Bahia e sua viagem no avião de Eike Batista. "Toda essa proximidade dá margem à justa suspeita de tráfico de influência", disse Chico Alencar. "Com todo respeito às famílias, para além do luto e da dor há uma alta autoridade pública do estado do Rio de Janeiro recebendo favores de financiador de campanha, no caso de Eike Batista, e do maior vencedor de licitações para obras no estado (Cavendish e a sua Delta)", completou o deputado. 22 de Junho de 2011 Fonte: Janira Rocha Marcela Rocha O deputado estadual Marcelo Freixo (Psol-RJ) cobra do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), explicações sobre as relações mantidas entre o político e o mega empresário Eike Batista. "Com todo respeito à dor, mas quem está na vida pública tem que dar satisfação e está sujeito a isso", disse o socialista. "Não estou preocupado com as relações privadas do governador, mas me preocupa quando as privadas podem estar misturadas com questões públicas. Isso tem que ser esclarecido e é isso que vamos buscar na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj)", disse. Freixo entrará na semana que vem com um "requerimento de informação", que "obrigaria" o governador a dar respostas aos questionamentos da Alerj. "Não posso achar normal que o governador do Rio viaje no jato de um empresário que, ao contrário do que ele diz, tem investimentos no governo. Também não acho aceitável o governador indo para uma festa de um empreiteiro que também tem muitos investimentos no Estado. Essa mistura entre o público e o privado não é boa, não é normal. Isso tem que ser esclarecido", cobra o parlamentar. Embora tenha sido um dos primeiros a levantar essas dúvidas quanto às relações mantidas pelo governador e os empresários, Freixo salienta que é preciso esperar antes de tomar medidas políticas e legais. Após reunião feita entre os deputados que endossam o requerimento, a reação na Alerj foi postergada para a próxima semana. Freixo segue questionando e levantando suposições a serem acrescentadas no requerimento: "O senhor Eike Batista ganhou, durante o governo Cabral, R$ 75 milhões em isenção. Aí, ele vem com a cara de pau mais lavada do mundo dizer que não tem investimentos. Ele faz o que quiser com o dinheiro dele, eu não estou preocupado com o dinheiro dele, mas com o público. E preocupado com o governador do Rio de Janeiro viajando no jato particular do empresário que foi um dos financiadores de sua campanha" atacou, para depois prosseguir: "Coincidentemente, Eike contribuiu para a campanha do governador com R$ 750 mil, exatos 10% da isenção que ele recebeu do governo Cabral. Pode ser uma grande coincidência, mas isso tem que ser investigado. Da mesma maneira que a Delta Construções S/A tem diversos contratos vencidos sem licitação", concluiu. Fonte: JB, 22/06/2011 |
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